Cesar Gracie: irmãos Nick e Nate Diaz representam bem a família Gracie

Treinador conta trajetória nos EUA e diz que, como técnico, tem maior possibilidade de representar o jiu-jítsu do que como competidor individual.

 

 A família Gracie é sinônimo de excelência no jiu-jítsu e nos esportes de combate desde o século passado e é considerada a precursora do que viria a ser chamado de MMA, o esporte das artes marciais mistas. Entretanto, nos últimos anos, seus principais representantes nesta modalidade têm sido treinadores: Renzo e Cesar Gracie. O segundo ganhou notoriedade através de vários alunos campeões do Strikeforce: o peso-leve Gilbert Melendez, o peso-médio Jake Shields e, principalmente, o peso-meio-médio Nick Diaz.
Filho de Sonja Gracie-Gronning e neto de Carlos Gracie, Cesar morou nos EUA pela maior parte de sua vida e hoje tem mais facilidade na língua inglesa do que na portuguesa. Também competiu apenas uma vez no MMA, sofrendo uma derrota em apenas 20s para o ex-campeão dos pesos-meio-pesados Frank Shamrock, e considera que representa a "arte suave" melhor como treinador, onde tem uma janela maior de tempo e uma equipe à sua disposição, do que como lutador. Mesmo assim, tem muito orgulho de tudo o que os Gracie criaram e conquistaram, acompanha as trajetórias de seus parentes e entende a história e trajetória da família.
Por isso, diz tranquilamente que os polêmicos irmãos Nick e Nate Diaz incorporam o espírito de seus primos e tios. Os dois ficaram famosos por posturas agressivas frente a seus adversários, tanto dentro do octógono quanto fora dele, e Nick, particularmente, ficou marcado por seu uso terapêutico de maconha medicinal na Califórnia, que lhe rendeu uma suspensão de um ano após ser flagrado no exame antidoping no UFC 143, em fevereiro. Cesar prefere não se envolver na vida pessoal de seu aluno, mas defende a atitude dele e de Nate, ex-campeão do reality show "The Ultimate Fighter" e atual desafiante nº 1 dos pesos-leves do UFC.
- Eles são guerreiros. Sempre estão prontos para enfrentar um desafio. Às vezes, sua atitude é algo a que o público não está acostumado, pois eles cresceram num ambiente onde isso é esperado de você. Eles são um pouco difíceis de lidar. Mas seu espírito de lutador é formidável e eles certamente representam nossa família - afirmou Cesar Gracie, em entrevista exclusiva ao SPORTV.COM, concedida em San Jose, EUA.
Confira a entrevista de Cesar Gracie na íntegra:
Por que você decidiu se mudar para os EUA e especificamente para a Califórnia?
Quando eu tinha sete anos de idade, minha mãe deixou o Brasil. Ela casou com um americano e veio para cá morar com ele. Deixei minha família no Brasil e me mudei para cá em 1973. Quando eu fiz 18 anos, voltei para o Brasil, fiz muito jiu-jítsu e meio que reconectei com a minha família. Tinha alguns primos meus, os Machados, que queriam vir para os EUA, e eles vieram comigo. Eles estavam interessados em morar aqui na Califórnia, então eu trouxe meu primo Rigan para Los Angeles, onde eu morava, em janeiro de 1990. Depois de alguns anos, quis voltar para o norte da Califórnia, que é onde eu me sentia melhor, gostava mais do ritmo daqui, e foi quando abri a academia, em 1993, pouco antes do primeiro UFC.
Por que você só fez uma luta de MMA?
Quando eu estava crescendo, o MMA não era muito grande, não havia nenhum dinheiro envolvido (risos) e nenhum interesse. A razão pela qual fiz uma luta de MMA foi mais para provar aos meus alunos que... É difícil mandar pessoas para a jaula se eu não fiz, é meio hipócrita. Na época que lutei, já tinha 40 anos. Mas queria mostrar que, na minha idade, eu iria enfrentar um campeão. Não era sobre vencer ou perder; é claro que todo mundo gosta de vencer, mas para ser um líder, você precisa fazer o que diz aos outros para fazerem.
Você fez desafios contra lutadores de outras artes marciais, como seus primos?
Fiz, pois quando abri minha escola, muita gente entrava e queria lutar porque eles não acreditavam no jiu-jítsu. Ainda não existia o UFC quando eu me mudei para cá. As pessoas entravam e te desafiavam, então você tinha de enfrentá-los.




Hoje em dia, os Gracies mais proeminentes não são lutadores, como no passado, mas treinadores, como você e Renzo. Por que você acha que isso aconteceu?
Acho que com o esporte crescendo tanto, um lutador representa apenas a si mesmo, mas se um homem tem uma equipe, ele tem tantos lutadores que podem representar seu estilo e o que ele está ensinando. É uma influência muito maior se você tiver uma equipe de lutadores em vez de apenas você mesmo. Você sozinho tem uma janela muito menor de luta - entre os 20 e 30 e poucos anos, e está acabado. Como técnico, você tem uma janela muito mais longa para explorar o que você ensina e sua arte.
Você segue outros Gracies atuais pelo mundo, como Roger e Kyra? O que você acha deles?
Sim. Eles são minha família e os amo. Kyra, acabei de vê-la no fim de semana passado e foi engraçado, tivemos algo desconfortável. Ela tinha uma luta e não tinha adversária, então me pediram para arrumar alguém. A primeira pessoa que queriam era Ronda Rousey, que está treinando conosco e que também treina com Renzo. Contratualmente, era muito difícil porque ela (Rousey) é a atual campeã do Strikeforce, e Ronda está conosco há um tempo, então não queria que elas se enfrentassem. Mas havia outra garota, Alexis Davis, que treinava com a equipe do Royler e tinha acabado de se juntar ao meu time, cerca de duas semanas antes. Disse, "Tenho esta garota que é muito dura, é boa lutadora e não temos laços próximos porque ela ainda não está há muito tempo conosco" e a mandei para a luta com a Kyra. Eu certamente olho para a família. Fiquei muito feliz pela Kyra ter uma boa atuação. Roger é provavelmente o melhor lutador da família e o melhor grappler do mundo no momento. Meu primo Kron treinou para sua luta contra Victor Estima por um tempo com meus estudantes, os irmãos Diaz, e me sinto muito próximo a todos, os apoio demais.
Historicamente, sempre houve muita divisão na família Gracie, seja entre os filhos do Hélio e do Carlos, Carlson, etc. Você é próximo a todos, tem uma posição nessa divisão ou se mantém longe disso?
Eu não tenho uma divisão ou luta. Hélio teve uma grande influência no jiu-jítsu, foi um dos maiores líderes, e é meu tio, então é família para mim. Carlos foi seu professor e foi quem criou o Gracie Jiu-Jítsu, pois ele ensinou ao Hélio e teve a primeira Academia Gracie. Eu olho para os fatos. Quem teve a maior influência? É questão de opinião. Não me envolvo nisso, em quem foi mais influente. E mais gente veio depois deles - Rolls, Rickson, todos os outros, e agora Roger é o melhor lutador. Todos eles tiveram seu lugar na história e acho que é mesquinho discutir quem teve uma maior influência. Isso é para o público decidir, não eu, mas reconheço que Carlos foi o fundador do sistema.
Um lutador representa apenas a si mesmo, mas se um homem tem uma equipe, ele tem tantos lutadores que podem representar seu estilo e o que ele está ensinando. É uma influência muito maior se você tiver uma equipe de lutadores em vez de apenas você mesmo"
Cesar Gracie
Você se mantém em contato com os outros Gracie que moram nos EUA?
Não vejo o Rorion muito, pois ele está dirigindo sua academia, e não muitos na minha família estão envolvidos no que estou envolvido. Seguimos caminhos diferentes. Meus alunos estão lutando, competindo em torneios de jiu-jítsu, são muito ativos, e alguns Gracies não são tão ativos em competições. Estão mais em suas academias fazendo o que gostam. Não vejo muita gente frequentemente, como Rorion. O Rilion é uma grande influência e eu o credito em ser realmente meu primeiro professor. Falamos frequentemente e, agora que ele está morando nos EUA, posso trabalhar com ele em alguns projetos, e estou empolgado em fazê-lo.
Quem te deu sua faixa preta?
Minha faixa preta é uma história engraçada. Um dos membros da minha família me deu a faixa preta primeiro, mas ele era mais conhecido por ser da defesa pessoal, e apesar de ser um gesto bonito, eu não aceitei e decidi esperar. Esperei mais uns dois anos para receber da federação do Robson Gracie. Quem veio me dar a faixa foi o Renzo, que treinava comigo, me assistia, me ensinava, e me disse que eu estava sendo promovido à faixa preta por seu pai, Robson.
Você acha que o Gracie Jiu-Jítsu tradicional perdeu sua força no MMA?
Acho que não, ao contrário, está mais forte do que nunca, porque todo mundo faz agora. Antigamente, talvez o cara que representava o Gracie Jiu-Jítsu estivesse vencendo mais, pois ninguém mais sabia, mas não há um lutador que não saiba alguma coisa disso agora, e a maioria sabe muito disso. Isto é um crédito ao que o Carlos fundou. É enorme agora no mundo, pois todo mundo treina isso.
Quem você diria que é o melhor lutador de jiu-jítsu no MMA?
Não sei se há um melhor. Roger é o melhor no esporte jiu-jítsu. Jiu-jítsu para MMA é diferente, e a única forma de ser bom nisso é lutando muito. Há muitos caras muito bons, como Roger, que está melhorando cada vez mais, Demian Maia me vem à mente, Nick Diaz é outro e talvez Jake Shields.



Você tem muitos alunos bem sucedidos, mas os mais famosos são os irmãos Diaz, Nick e Nate. Você acredita que eles incorporam o espírito desafiador da família Gracie?Sim. Eles são guerreiros. Sempre estão prontos para enfrentar um desafio. Às vezes, sua atitude é algo que o público não está acostumado, pois eles cresceram num ambiente onde isso é esperado de você. Eles são um pouco difíceis de lidar. Mas seu espírito de lutador é formidável e eles certamente representam nossa família.
Você já falou do comportamento do Nick e como é difícil de lidar com ele. Como você lida com ele?(Risos) Bom, como eu disse, é difícil às vezes, mas ele é um cara bom, tem um bom coração, e eu respeito muito sua habilidade de lutar e sua atitude. Quando ele está na jaula, ele põe tudo numa luta. Há poucas pessoas que são boas no chão e em pé como ele. Acho que é possível que Nick seja o melhor cara no mundo em misturar a luta em pé e o chão. É difícil, mas o que o torna um grande lutador, sua atitude, também tem seus problemas, e eu tenho que aceitar o bom com o ruim.
Quanto à controvérsia sobre o Nick fumar maconha, na Califórnia o uso medicinal é permitido, mas a família Gracie sempre foi contra o uso de drogas. Queria saber como você se sente a respeito disso.Todo homem tem de tomar uma decisão. Alguns homens bebem vinho no fim de semana, ou bebem cerveja à noite. Não acho que fumar maconha frequentemente é a melhor coisa para você, mas Nick é um homem crescido, e é a mesma decisão de você tomar um vinho à noite ou de vez em quando. É de cada pessoa. Eu ensino jiu-jítsu e certamente queremos um estilo de vida saudável. Mas não me envolvo com os negócios pessoais de um homem.
O MMA finalmente explodiu no Brasil no último ano. Você acha que o potencial de mercado lá será suficiente para que os atletas não precisem mais sair do país para treinar e evoluir?Acho que sim. O Brasil é a casa do MMA, é onde o esporte nasceu e minha família foi quem começou tudo. Acho que conforme a economia continuar a crescer, vão haver mais oportunidades de patrocínio e mais dinheiro para que os brasileiros se sustentem no seu próprio país. É minha esperança que cresça lá, pois é um grande país, e estou ansioso para que os atletas possam ficar lá. Gostaria de ver promoções brasileiras crescendo e talvez rivalizando com o UFC um dia, seria meu sonho.
Você se vê voltando ao Brasil para ensinar lá?
Gostaria disso. Minha vida agora é aqui, tenho filhos. Gostaria de visitar lá, mas se as coisas melhorarem no Brasil para o MMA e o jiu-jítsu, seria ótimo para voltar. Mas olhe a Federação Internacional de Jiu-Jítsu Brasileiro, eles vieram para cá. Eles fazem seus Mundiais aqui agora, não no Brasil, pois viram que aqui seria mais lucrativo. Mas conforme a economia brasileira cresce, isso pode estar mudando. Seria ótimo se pudessem voltar para lá.

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