Nova 'casa' de Lyoto, Black House reúne campeões no gueto de L.A.

Academia é ponto de encontro de lutadores de diferentes times do mundo todo e exibe coleção de camisas de momentos marcantes do MMA brasileiro.

 

 

Quem passa de carro pelas ruas de Gardena, vizinhança humilde no meio de Los Angeles, não imagina que, em meio a lojas de autopeças e armazéns, um galpão frio e sem letreiro reúne alguns dos lutadores mais "casca grossa" do MMA internacional. A uma quadra de Compton, bairro considerado entre os mais perigosos dos EUA, está localizada a Black House, academia que abriga campeões e ídolos do UFC como Anderson Silva, Rodrigo Minotauro, Lyoto Machida e Wanderlei Silva, entre outros.







Eu queria que ficasse em Compton! - admite Ed Soares, sócio de Jorge "Joinha" Guimarães na Tough Media Inc, empresa que gerencia a carreira de alguns dos principais lutadores do mundo e é proprietária da Black House. Fã de hip hop, Soares era o único menino "branquinho" a comprar fitas do N.W.A, grupo de rap que popularizou o bairro no mundo inteiro com o sucesso "Straight Outta Compton", nas feiras da vizinhança predominantemente negra em sua juventude. - Eu me sinto confortável no meio do gueto. Mas não foi de propósito. Aqui era a fábrica da Sinister, minha marca de roupas. Estar aqui no meio do gueto dá um sentimento mais cru.

A Black House nasceu em 2006, no Rio de Janeiro, onde hoje está a XGym. Segundo Joinha, a origem do nome vem de uma brincadeira do treinador e preparador físico Rogério Camões, também conhecido como "Negão", que chamava o empresário para treinar com ele na sua "Black House" ("Casa Negra"). Desde 2008, a academia está localizada em Los Angeles e virou um abrigo para grandes nomes do MMA que querem melhorar seu jogo e permanecer longe da badalação de fãs e imprensa. O endereço é secreto, revelado apenas a seletos convidados, para evitar que curiosos e lutadores amadores apareçam para perturbar. O visitante só identifica o local quando chega à porta e vê a logo na pequena porta de vidro.
A sala de espera, logo na entrada, dá a dimensão da importância da Black House no mundo do MMA. Em cada parede, encontram-se expostos os uniformes utilizados por Anderson Silva, José Aldo, Lyoto Machida, Rodrigo Minotauro e Rogério Minotouro, entre outros, em lutas marcantes de suas carreiras.
A academia em si não é muito diferente das demais: pesos, sacos de areia, tatame, ringue e octógono, embora uma parede decorada por um grafite com a figura do presidente dos EUA, Barack Obama, de olho roxo, já tenha se tornado famosa entre os fãs da modalidade. O que torna a Black House especial é sua capacidade de reunir grandes nomes de alto nível e de diferentes equipes num só espaço.
O técnico Rafael Cordeiro, ex-Chute Boxe e dono da Kings MMA, comanda os treinos na academia três vezes por semana. Dependendo da época, além dos ídolos já citados, pode-se encontrar lá lutadores brasileiros como Pedro Rizzo, Fabrício Werdum, Roger Gracie, Rafael dos Anjos, Carlos Eduardo Tá Danado, Fabrício Morango, Johnny Eduardo, Diego Nunes e Rafael Feijão, e estrangeiros como Mark Muñoz, Satoshi Ishii, Kenny Johnson e Justin Lawrence, entre outros. Já passaram por lá também José Aldo, Junior Cigano e Antônio Pezão.
- A Black House vem com o objetivo de ser um grande centro, e quando estamos num grande centro, a gente consegue aderir e agregar pessoas de grandes valores. Los Angeles é uma cidade que junta um número maior de pessoas de grande nível e isso soma bastante para a gente. É um bom ponto de encontro de grandes lutadores - explica Lyoto Machida, que após fazer alguns treinos esporádicos na academia nos últimos anos, se mudou para L.A. por três meses e estabeleceu base na Black House, de olho em seu duelo com Ryan Bader, que acontece na cidade em 4 de agosto.
A Black House recebe, ao mesmo tempo, representantes de equipes distintas como Nova União, Team Nogueira, Manguinhos, Champion Team e American Top Team, algo impensável há até pouco tempo no Brasil, onde a rivalidade entre estilos e times tornava qualquer um que saísse para treinar em uma academia rival em traíra, ou "creonte", como popularizado por Carlson Gracie. Soares justifica a facilidade de se reunir rivais pelo sentimento de "família" que ele e Joinha tentam passar a seus lutadores. Segundo o empresário, a Black House é apenas a base de operações, de onde os sócios buscam oportunidades de treino para seus clientes com diversas academias da região. Guimarães vai além e diz que a evolução do MMA forçou os brasileiros a reverem seus conceitos.
- O cross training é muito importante, e a gente incita isso. É a evolução do esporte. A gente tenta evitar que tenhamos gente do mesmo peso, para não gerar conflito, mas se tiver que se enfrentar por um título, todo mundo sai ganhando. Todos merecem um lugar ao Sol - afirma.



Todos mesmo. Apesar de reservada, a Black House recebe também lutadores ainda sem nome no mercado, desde que indicados. Paulo Bananada, por exemplo, saiu da Chacrinha, comunidade do Rio de Janeiro, apadrinhado por Anderson Silva e foi para a Califórnia treinar com o "Spider" e com os demais craques da academia. O paulista Pedro Munhoz foi para os EUA auxiliado por alunos de jiu-jítsu em São Paulo, foi descoberto por Joinha e logo começou a comandar treinos na Black House, substituindo Rafael Cordeiro quando este está ausente.
- Às vezes, digo que estou vivendo um sonho. Para eu evoluir como treinador, isso está sendo bem legal, a galera vem elogiando. O Anderson vinha aqui e me chamava de "coach" (técnico), e eu dizia, "Não sou coach, velho, só estou ajudando a organizar os treinos", e ele respondia, "Não, você é coach, aprendi bastante contigo". Eu fico elaborando os treinos para não repetir nada, e só estou ajudando - conta, humilde, Munhoz.



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