Sem a antiga rivalidade, Chute Boxe e BTT se reencontram no UFC 147

Sertanejo e Miltinho não carregam ranço do antagonismo entre suas equipes e demonstram evolução do treinamento no MMA, com colaboração entre times.

 

Se alguém tem dúvidas de o quanto o MMA mudou nos últimos 10 anos, basta olhar para a primeira luta do UFC 147, neste sábado, no Mineirinho, em Belo Horizonte. O combate entre Felipe Sertanejo e Miltinho Vieira põe frente a frente as equipes que formaram talvez a maior rivalidade do esporte em sua era profissional: a Chute Boxe, de Sertanejo, e a Brazilian Top Team (BTT), de Miltinho. Há muito removidos do papel de protagonismo que detinham no início do século, os dois times hoje confraternizam e seus representantes já até treinaram juntos, numa amostra clara da evolução da modalidade. Apesar da nostalgia que o confronto traz, os dois lutadores garantem que não levarão nenhum ranço de antagonismo para o octógono.
Sertanejo é jovem e, com apenas 24 anos, não viveu o auge das batalhas entre os dois times, iniciado em 2002 quando o japonês Norihisa Yamamoto fez um treino promocional com a BTT antes de uma luta com Wanderlei Silva, na época o principal nome da Chute Boxe. Os lutadores da equipe curitibana não gostaram nada de saber da história e foram tirar satisfação durante um café da manhã no Japão. Uma briga quase estourou entre Ricardo Arona, atleta da BTT, e Wanderlei. Quem impediu a luta foi Rodrigo Minotauro, do time carioca, e Anderson Silva, da equipe curitibana. Assim começou a amizade entre os dois.
- Estava eu segurando Arona, e Anderson segurando Wanderlei. Foi o primeiro contato que tive com o Anderson. Pensei, "Esse cara é maneiro". Um ano depois, ele estava vindo treinar na nossa equipe - lembra Minotauro.
Se o incidente iniciou a amizade entre Minota e Spider, detonou a rivalidade entre os dois times no Pride, maior evento de MMA da época, e produziu duelos memoráveis, como Wanderlei x Arona, Shogun x Minotouro e Zé Mário Sperry x Murilo Ninja. Na época, ainda imperava a mentalidade de fidelidade total às equipes, em que não se podia interagir com atletas de times rivais, e ninguém representava melhor isso do que a Chute Boxe e a BTT.
Foi uma época que marcou. O Pride está na historia, era maior que o UFC na época. Quem viveu, viveu; quem não viveu, não vai ter outro. Fazia parte, era um tempero do Pride. Os fãs japoneses torciam para os dois lados, do outro lado do mundo. Foi interessante e importante. Foi saudável. As duas equipes se forçaram a ser melhores. Lutar um contra o outro era uma guerra. Tipo um Flamengo e Vasco, ninguém quer perder - explica Murilo Bustamante, fundador e treinador da BTT.
- A BTT era meu maior estímulo para treinar - admite Maurício Shogun, destaque da Chute Boxe.


                                                  Ricardo Arona e Wanderlei Silva


Mudança de mentalidade

Ao contrário de seu oponente deste sábado, Miltinho viveu o auge da rivalidade entre as duas equipes. Apesar de estreante no Ultimate, o carioca de 33 anos esteve inúmeras vezes no Japão com os colegas de BTT e competiu no Pride. Entretanto, desde aquela época, ele já se diferenciava dos companheiros e seguia a mesma postura de Minotauro.
- Sempre fui um caso à parte. Se perguntar para eles, vão saber disso. Eu apertava a mão, dizia bom dia, boa noite... Não me importava de estar na internet ao lado, de pedir ajuda para um deles para desenrolar algo em inglês. Por causa da rivalidade, na época, alguns da minha equipe vinham às vezes e diziam, "P... Para com isso, seu pela-saco". Que pela-saco, irmão? O negócio é fazer o bem, todo mundo é ser humano e, dentro do ringue, a gente resolve - conta Miltinho.
Com a decadência e fim do Pride, em 2007, a rivalidade entre as equipes esfriou. Também contribuiu para isso o desmembramento de ambos os times: Vitor Belfort, Minotauro, Zé Mário Sperry e outros deixaram a BTT para formar seus próprios times, assim como Wanderlei, Shogun, Rafael Cordeiro e Fabrício Werdum também abandonaram a Chute Boxe e montaram suas próprias academias. A pulverização e a evolução do esporte no UFC, exigindo atletas mais completos, também mudou a mentalidade dos lutadores, que passaram a colaborar entre si para buscar melhoras nos seus jogos. Hoje em dia, academias como a Black House e Kings MMA reúnem representantes de variadas bandeiras, como Team Nogueira, Universidade da Luta, Nova União, entre outras.
- Acredito que hoje seja melhor. Aquele princípio foi importante para chegar onde chegamos hoje, mas agora o clima é melhor. Todo mundo pode confraternizar junto. Se a BTT tem um bom jiu-jítsu, vamos passar um bom muay thai para eles - analisa Rafael Cordeiro.

A opinião é praticamente unânime. Tanto Sertanejo quanto Miltinho garantem que a rivalidade, por mais divertida que fosse, está enterrada, e que o clima de competição dentro do octógono será apenas entre dois homens buscando um futuro melhor para seus times e suas famílias.
- Isso é coisa do passado, nem penso nisso. O Dana White nem gosta que representemos nossas equipes, quer que lutemos por nós próprios - diz Sertanejo, involuntariamente acusando um dos principais responsáveis pela quebra de paradigma: o presidente do UFC, que vez ou outra coloca lutadores da mesma bandeira para se enfrentarem.
Todavia, um pouco de fidelidade às raízes ainda é saudável. Cordeiro, que considera Sertanejo "um sobrinho" seu, não vai deixar de torcer pela vitória do paulista com vontade.
- Agora é Chute Boxe desde criancinha. Tomara que o Sertanejo dê um nocautão bem bonito - sorri o treinador.

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